MÉTODO DE GRAHAM E FÓRMULA DE BAZIN: COMO ACHAR O PREÇO-TETO DE UMA AÇÃO

DUAS FÓRMULAS CLÁSSICAS PARA NÃO PAGAR CARO EM UMA AÇÃO 

Uma ação a R$ 30 é cara ou barata? Assim como acontece com os fundos imobiliários, o preço isolado de uma ação não diz absolutamente nada sobre se ela está sendo negociada de forma justa. Para responder a essa pergunta, gerações de investidores recorreram a duas metodologias clássicas, criadas décadas atrás, que continuam sendo amplamente usadas até hoje: o método de Graham e a fórmula de Bazin.

Neste artigo, você vai entender como calcular o preço-teto de uma ação usando essas duas metodologias clássicas, ver exemplos práticos de aplicação e, principalmente, conhecer as limitações de cada fórmula para diferentes tipos de empresas e setores. Se você já investe em ações ou está começando a estudar valuation, este guia vai ajudar a usar essas ferramentas com mais critério e menos armadilhas.


O que é preço-teto e por que ele importa

Preço-teto é o valor máximo que um investidor estaria disposto a pagar por uma ação, considerando os fundamentos da empresa, sem comprometer o retorno esperado do investimento. Diferente do preço-alvo usado por analistas de mercado, que costuma incorporar expectativas de crescimento futuro, o preço-teto geralmente é calculado de forma mais conservadora, servindo como um limite de segurança na hora da compra.

Ter um preço-teto definido ajuda a evitar decisões impulsivas baseadas apenas no entusiasmo do mercado ou em manchetes de notícias, trazendo mais disciplina para o processo de seleção de ações.

Método de Graham: o número mágico de Benjamin Graham

Benjamin Graham, considerado o pai do value investing e mentor de Warren Buffett, desenvolveu uma fórmula simplificada para estimar o valor justo de uma ação combinando dois indicadores fundamentais: o lucro por ação e o valor patrimonial por ação.

Como calcular o número de Graham

A versão da fórmula mais utilizada no mercado brasileiro é a seguinte: multiplica-se o Lucro Por Ação (LPA) pelo Valor Patrimonial Por Ação (VPA), multiplica-se esse resultado por 22,5 e, em seguida, extrai-se a raiz quadrada do valor obtido. O número 22,5 vem da multiplicação dos limites que Graham considerava razoáveis para dois outros indicadores: um P/L máximo de 15 e um P/VP máximo de 1,5.

Se o resultado dessa conta for maior do que o preço atual da ação na bolsa, isso sugere, segundo a metodologia original, que o papel pode estar sendo negociado abaixo do valor indicado pela fórmula. Se for menor, o preço de mercado já estaria acima do que a fórmula considera razoável.

Para quais empresas o método de Graham funciona melhor

Essa fórmula tende a funcionar melhor em empresas mais maduras, com lucros consistentes e um valor patrimonial que reflete de forma razoável os ativos reais do negócio, como bancos, indústrias tradicionais e empresas de setores mais estáveis. Ela não exige a projeção de crescimento futuro, o que a torna relativamente simples de aplicar.

Fórmula de Bazin: o foco na renda gerada pelos dividendos

Décio Bazin, autor brasileiro conhecido por popularizar estratégias de investimento em dividendos no país, desenvolveu uma fórmula com uma lógica diferente da de Graham: em vez de olhar para o lucro e o patrimônio, ela foca exclusivamente na renda distribuída aos acionistas.

Como calcular o preço-teto pela fórmula de Bazin

O cálculo consiste em dividir o valor de dividendos pagos por ação, geralmente considerando a média dos últimos anos, por uma taxa de retorno mínima desejada pelo investidor. Na formulação original de Bazin, essa taxa era de 6% ao ano, mas muitos investidores ajustam esse percentual conforme o cenário de juros da economia e seu próprio objetivo de rentabilidade.

Se o preço atual da ação estiver abaixo do valor calculado, a fórmula sugere que a empresa está pagando um dividend yield acima do mínimo desejado, tornando o preço atrativo sob essa ótica específica. Se estiver acima, o retorno em dividendos, no preço atual, ficaria abaixo do patamar considerado satisfatório.

Para quais empresas a fórmula de Bazin funciona melhor

Por depender diretamente do histórico de distribuição de dividendos, essa fórmula funciona melhor para empresas com política de proventos consistente e previsível ao longo dos anos, geralmente encontradas em setores mais maduros e com geração de caixa estável, como energia elétrica, saneamento e alguns bancos. Se você está estruturando uma carteira com esse perfil, vale a leitura do artigo Ações que Pagam Dividendos: Como Montar uma Carteira, que aprofunda os setores mais consistentes nesse tipo de retorno.

Composição gráfica comparando o método de Benjamin Graham focado em patrimônio e lucro com a fórmula de Décio Bazin focada em dividendos

Exemplo prático de aplicação das duas fórmulas

Imagine uma empresa fictícia do setor elétrico, com Lucro Por Ação de R$ 3,00 e Valor Patrimonial Por Ação de R$ 20,00. Aplicando o método de Graham, o cálculo seria: 22,5 multiplicado por 3,00 e por 20,00, resultando em 1.350. A raiz quadrada desse número é aproximadamente 36,7. Ou seja, pelo método de Graham, o preço-teto estimado seria de cerca de R$ 36,70.

Agora, considerando que essa mesma empresa distribuiu, em média, R$ 2,20 por ação em dividendos nos últimos anos, e utilizando a taxa de retorno mínima de 6% da fórmula original de Bazin, o cálculo seria: 2,20 dividido por 0,06, resultando em aproximadamente R$ 36,67. Nesse exemplo específico, as duas fórmulas chegaram a valores bastante próximos, mas isso não é uma regra: em muitas situações reais, elas podem apontar para preços-teto bem diferentes, já que partem de premissas distintas.

Se o preço da ação estivesse sendo negociado a R$ 30 no mercado, ambas as fórmulas sugeririam, nesse cenário hipotético, que o papel está abaixo do preço-teto calculado. Já se estivesse a R$ 42, as duas indicariam que o preço de mercado superou o limite considerado razoável pelas metodologias.

 Investidor analisando métricas e relatórios no computador para avaliar os riscos e limitações das fórmulas de valuation.

Limitações das duas fórmulas

Nenhuma dessas fórmulas deve ser utilizada como verdade absoluta, e conhecer suas limitações é tão importante quanto saber calculá-las.

Limitações do método de Graham

A fórmula perde sentido para empresas com lucro negativo, já que não é possível calcular a raiz quadrada de um número negativo de forma que faça sentido econômico. Também não funciona bem para empresas de tecnologia ou negócios que dependem principalmente de ativos intangíveis, como marcas e propriedade intelectual, cujo valor patrimonial contábil costuma subestimar o valor real do negócio. Setores como bancos e seguradoras também exigem cautela adicional, já que possuem estruturas de capital e formas de contabilização de patrimônio bastante diferentes das empresas industriais tradicionais, para as quais a fórmula foi originalmente pensada.

Limitações da fórmula de Bazin

Essa fórmula depende inteiramente do histórico de dividendos, o que a torna inadequada para empresas em fase de crescimento que reinvestem a maior parte dos lucros em vez de distribuí-los aos acionistas. Além disso, dividendos passados não garantem dividendos futuros: uma empresa pode ter distribuído bons proventos historicamente e, de repente, reduzir ou suspender pagamentos devido a dificuldades financeiras, dinâmicas do setor ou mudanças na política de distribuição. Setores cíclicos, como commodities, também podem distorcer o cálculo, já que os dividendos tendem a variar bastante conforme os preços das matérias-primas no mercado internacional.

Usando as duas fórmulas em conjunto

Em vez de escolher apenas uma metodologia, muitos investidores preferem calcular ambas e usar os resultados como referências complementares, cruzando essa informação com uma análise mais ampla dos fundamentos da empresa. Se você quer se aprofundar em como avaliar uma empresa de forma mais completa, antes mesmo de aplicar essas fórmulas, o artigo Como Analisar Ações para Investir traz os principais indicadores usados nessa análise inicial.

Vale lembrar que nenhuma fórmula matemática substitui a análise qualitativa da empresa, como a qualidade da gestão, o posicionamento competitivo no setor e a sustentabilidade do modelo de negócio ao longo do tempo.

Conclusão

O método de Graham e a fórmula de Bazin são ferramentas simples e acessíveis para estimar o preço-teto de uma ação, cada uma com uma lógica própria: enquanto Graham combina lucro e patrimônio, Bazin foca exclusivamente na renda gerada pelos dividendos. Nenhuma das duas é infalível, e ambas apresentam limitações importantes para determinados setores e perfis de empresa, especialmente negócios em crescimento, companhias com prejuízo ou modelos baseados em ativos intangíveis. Usadas com senso crítico, como um ponto de partida para a análise e não como resposta definitiva, essas fórmulas ajudam a trazer mais disciplina e objetividade para o processo de decisão de compra de ações.

Perguntas frequentes sobre o método de Graham e a fórmula de Bazin

Qual a diferença entre o método de Graham e a fórmula de Bazin?

O método de Graham combina lucro por ação e valor patrimonial por ação para estimar um preço justo, enquanto a fórmula de Bazin considera apenas o histórico de dividendos distribuídos em relação a uma taxa de retorno mínima desejada.

As duas fórmulas sempre chegam ao mesmo resultado?

Não. Como partem de premissas diferentes, os resultados podem divergir bastante dependendo da empresa analisada, especialmente quando o lucro e os dividendos distribuídos não seguem uma proporção parecida.

O método de Graham funciona para empresas de tecnologia?

Geralmente não é a fórmula mais adequada, já que empresas de tecnologia costumam ter valor patrimonial contábil baixo em relação ao valor real do negócio, distorcendo o cálculo do número de Graham.

A fórmula de Bazin funciona para empresas que não pagam dividendos?

Não. Como o cálculo depende diretamente do histórico de dividendos distribuídos, ela não se aplica a empresas que reinvestem todo o lucro ou que ainda não possuem um histórico consistente de proventos.

É seguro comprar uma ação só porque o preço está abaixo do preço-teto calculado?

Não é recomendado basear a decisão apenas nesse critério. O ideal é combinar essas fórmulas com uma análise mais ampla dos fundamentos, da gestão e do setor em que a empresa está inserida.

Este conteúdo tem caráter educativo e não constitui recomendação de investimento. Antes de tomar decisões, avalie seu perfil de investidor e, se necessário, consulte um profissional certificado.

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